
A monstruosa dificuldade que se tornou comprar um ingresso para as apresentações de Madonna no Brasil rendeu histórias curiosas como a de uma amiga paulistana que, juntamente com outros conhecidos, fez uma vaquinha para pagar um cara pra ficar na fila e comprar ingressos no Morumbi. Isso sem contar as corriqueiras, de gente plantada feito dois de paus na frente do monitor, exercendo a sacrossanta paciência no apertar do F5, ou ainda, de pessoas tentando comprar por telefone, fritando as orelhas e gastando o redial de seus aparelhos. Enfim, Everybody se ferrando.
Assisto a tudo assustado, porém de longe; e com a tranqüilidade de quem se contenta em ter visto Madonna ao vivo da primeira vez que ela veio ao Brasil em 1993, com a turnê "The Girlie Show", pus o corpo fora do fogo cruzado de indignações para cogitar a seguinte idéia: esse show tá saindo caro demais. Ou melhor/pior: caro a ponto de não saber se tá valendo essa enxaqueca toda. Quer dizer, pros que são muito fãs da cantora, tê-la a poucos metros - ainda que na hora não necessariamente sejam poucos - já é um Doril eficaz o suficiente para apagar essas últimas horas de perrengues. Mas para os demais...
O lance é: quem vai ver mesmo a Madonna? Quem vai ouvi-la em boas condições? Uns 20% dos que irão aos estádios. Uns 20% de felizes sortudos que conseguirão ingressos para a pista vip. E uns 70% desses 20% certamente não vão desembolsar um real para isso. Aliás, quem conhece alguém que realmente conseguiu comprar um ingresso de pista vip? Eu só conheço gente com esperança de ter conseguido um vip por comprovar no cartão o devido débito correspondente ao valor do lugar comprado. Tá na cara: despreparo para gerenciar um evento desse porte é pouco.
Eu não vou e, pra quem não é muito fã da mulher, eu contra-indico sem pestanejar. E, numa boa, a última coisa que eu questiono nessa história é o talento da Madonna. O que pesa pra mim é o trauma de quem foi tratado como gado no último dia do Rock in Rio 3, de quem cansou de passar apuros sérios (aka bala perdida, briga de torcida organizada) no próprio Maracanã... e, claro, a grana pretíssima cobrada por um serviço que começou violentamente ruim. Argumentos que ganham a cumplicidade do fato de estarmos nos tempos do DVD e do home theater, com som e imagem espetaculares, mil vezes melhores do que o que será visto nos telões. E não me venham com esse papo de que tudo isso é caro porque, em termos de custo/benefício, a aparelhagem sai muito mais em conta do que um ingresso de R$600, incrivelmente inflacionado pela dificuldade em adquiri-lo. "Ah, mas show é orgânico, visceral, nada substitui". Concordo, concordo e concordo. Mas recordo a pergunta: quem vai VER mesmo a Madonna em vez de uma formiga loira, vista sobre um palco longínquo?
Espero que esteja errado e torço pra que tudo dê certo nos shows. E torcer é tão necessário quanto sintomático, pois, quando é necessário apelar pro pensamento positivo em eventos que deveriam ser inquestionavelmente incríveis e irretocavelmente organizados é porque a coisa tá feia.






