
O mundo esportivo ficou estarrecido - e grande parte do não-esportivo também - com a reveladora foto do nadador
Michael Phelps fumando maconha em um bong, tirada em novembro passado. "Oh! Como o maior campeão olímpico de todos os tempos, dono de 14 medalhes de ouro, sendo que oito delas só em Pequim no ano passado, e detentor de sete recordes mundiais, faz uma coisa dessas?", perguntaram, sem saber que o velho macete de vestibulandos se aplica nesta questão: a resposta está no próprio enunciado.
Mais claro do que isso, impossível. Imagine-se sendo Michael Phelps, com todas as glórias citadas acima, tendo apenas 23 anos de idade. Com esses parcos anos de vida, 99,98% dos habitantes do planeta sequer galgaram 2/10 de sua escalada profissional. Mas você não: você é Michael Phelps. Grandioso, bambambam, mais rápido, mais forte... e mais entediado.
Pense aí: o que há mais nessa vida para Michael Phelps conquistar em sua profissão? Eu sei a resposta, você também: NADA. "E aí, Phelpão? Quais os planos para o futuro?", pergunta o repórter. Pano rápido.
A essa altura do campeonato - trocadilho intencional -, a única ambição que Michael Phelps pode ter na vida é a de querer fazer merda. Sim, fazer merda. Afinal, pensando nele como figura pública, a última vez que tinha conseguido isso para valer até então foi em novembro de 2004, aos 19 anos, preso por dirigir embriagado. Longe de mim falar que ele devia ter pego no volante ao estar cheio de cana, mas em se tratando de Michael Phelps - que àquela altura já tinha cinco campeonatos mundiais, cinco recordes mundiais e cinco ouros olímpicos -, tá na cara que aquilo era uma grande conquista: a de sentir-se gente. Ou, em outras palavras, experimentar algo diferente de seu status divino, reverenciado pelo mundo nas piscinas e cobrado impiedosamente fora delas.
Ao pitar o cachimbo de maconha, Phelps estava repetindo Michael Jackson, Brian Wilson, Ronaldo Fenômeno... Pessoas que atingiram um alto grau de admiração, respeitabilidade, reconhecimento e excelência no que faziam e que, simplesmente, um dia se tocaram de que não havia mais nada a ser conquistado em suas carreiras - e, por isso mesmo, viram-se encontrando aquela frase de que o céu é o limite da pior forma possível: batendo a cabeça no teto alto mas visível da pasmaceira, vendo assim que até brincar de Deus enche o saco. E aí, fizeram o que qualquer um aqui poderia ter feito: chutaram o balde de jeito. Daqui de baixo, digam sinceramente: dá para culpá-los?
Passados o incidente e o mea culpa de Phelps,
o Comitê Olímpico Internacional aceitou pedido de desculpas do nadador. "Não temos motivos para duvidar de sua sinceridade e comprometimento com o papel de modelo de comportamento", disse Emmanuela Moreau, porta-voz da entidade, nesta segunda-feira. Talvez o que o COI e muita gente não tenha percebido é que, juízos de valor à parte, o imbroglio aproximou Phelps como nunca de qualquer moleque que sonha em repetir suas glórias, ao lembrar que ídolos são quem somos; e, para evitar maiores embaraços no futuro, saudável é saber desde cedo que, se poucos visitam o Olimpo, todo mundo mora mesmo é em sua periferia. E não dá para ser feliz aqui, vizinhança?