terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O GUITAR HERO SEM GRAÇA DA VIDA REAL




Acontece no Rio, mas poderia acontecer na sua cidade também - ou melhor, pode estar rolando por aí sim. Há alguns anos - não muitos, garanto - havia uma boa e frutífera cena de bandas no underground daqui. Elas faziam diversos tipos de som, cultivados e tocados em uma variedade interessante de palcos (das mais diversas qualidades), presentes em alguns festivais, noticiados em generosos centímetros quadrados por colunas resistentes, insistentes, pertinentes e tantos outros "entes", como a ótima Rio Fanzine, do jornal O Globo. Havia.

Hoje, o mesmo Rio Fanzine, quando noticia dois shows na mesma coluna, é certeza de chuva no fim de semana - e não é por nenhuma má vontade de seus autores. As linhas destinadas às apresentações foram se apagando por vários outros motivos que correram de mãos dadas. Dois deles se destacam: a escassez cada vez maior de palcos destinados aos novos grupos e a desistência das bandas diante da frustração disfarçada de prejuízo disfarçado de frustração no gastar demais (ensaios,equipamenos) e o quase nunca ganhar qualquer coisa em troca para compensar o que se desembolsa. Quem não é rico quase sempre desiste. Compreensível.

E os festivais de música independente? Nessa história toda, são eles o que há de difícil mesmo de se engolir. Hoje em dia, muitos desses eventos mudaram também. Antigamente, se os festivais apenas promoviam a reunião de bandas para que se apresentassem diante de públicos ávidos por música, hoje o negócio virou um acontecimento ao melhor gosto do lema do Barão de Coubertin: o importante é competir.

Os organizadores de boa parte dos festivais pegaram o pouco palco e a pouca grana das bandas, uniram as duas coisas para montar uma equação espertalhona e feia de doer. Seus eventos viraram verdadeiras gincanas musicais, em que um lugar no palco é leiloado a preço de votos de amiguinhos no Orkut e, uma vez garantida a escalação, o passo seguinte é a disputa de um prêmio maior. Disputa. Prêmio. Porra, será que alguém começa a fazer música pra disputar?

Eu, não. Nunca entrei numa competição dessas com minha banda, Netunos, e me orgulho disso. E por mais inacreditável que possa parecer, não quero com isso dizer que condeno quem busca realizar o sonho de viver de música através desses festivais, que dão de baquetas a discos gravados, de tênis a videoclipes. Há quem tenha culpa maior: os próprios produtores destes festivais - que, não raro, passaram pela mesma escola de produção porca de shows cujo cachê maior a seus artistas, no mais das vezes, é o gesto magnânimo de deixarem que toquem. Enquanto ali todo mundo na noite do show tá ganhando algum - do flanela à tia do banheiro, do barman ao segurança, os manés que carregam amplificadores, que gastam grana com corda, cabo e ensaio no máximo levam um tapinha nas costas. Quando o Netunos tocava direto, no período de 1999 a 2006, sempre foi assim. Desde então, claro que nada mudou.

O certo, obviamente, não é essa gincanada por aí, com neguinho prometendo um monte (e nem sempre cumprindo) vários prêmios como um baú da felicidade. O ideal seria que se pagassem às bandas todas as vezes em que elas se apresentassem, sem que precisassem entrar em disputinhas para serem reconhecidas financeiramente. Isso sim é o certo; mas quase nunca o correto prevalece...

E em pensar que todos esses parágrafos foram fomentados por insistentes e constrangedores pedidos de bandas e artistas (muitos, compostos por pessoas queridas) feitos a mim no Orkut para que ganhem votos para se apresentarem em festivais - no caso, um em especial, que resolveu neste ano jogar fora sua bela história de trampolim de novidades para se tornar uma versão real e estúpida do Guitar Hero, aquele videogame em que os jogadores tentam acumular pontos com controles que simulam instrumentos. Foi mal, mas não têm meu voto nem meu ingresso.

E, na boa, nem que me paguem.

4 comentários:

Mike disse...

E aí, nigga. Qtos séculos. Concordo com tudo que vc escreveu, e é triste ver q de 2000 pra cá tudo só piorou. Uma pena mesmo.
E qto ao HPP, q palhaçada mesmo. Aff, daqui a pouco vira um outro Duelo no Saloon.

Abrá
Mike Vlcek

Henrique Crespo disse...

Fala Carlão,
Gostei do espaço aqui. Que tudo continue rodando.

Enfim, o cenário anda mesmo desestimulante. Mas para falar a verdade nem sei bem se está muito pior do que já foi alguns anos atrás. Mas isso não impede uma certa sensação de fastio.

E no meu i-pod as ondas continuam quebrando de tempos em tempos. Sacou?

abç

Camila Alam disse...

Oi CA! Vorrrtei! tudo bom? Não li o post inteiro, tá? rs.. passei só pra dar um oi mesmo!

fui!

Ramon Mineiro disse...

Rapei, eu tenho minha banda aqui em São Paulo e a situação não é diferente não.

Já ensaiamos há quase dois anos, e cara, se recebemos 100 reais foi muito!

É foda...
É...

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